Baterias de íon-lítio: como funcionam e por que esquentam

Thayná Felizardo 21 min de leitura

Capa ilustrada: Baterias de íon-lítio: como funcionam e por que esquentam

Introdução

Poucas tecnologias mudaram tanto o cotidiano nas últimas três décadas quanto a bateria de íon-lítio. Ela está no celular que cabe no bolso, no notebook, na bicicleta elétrica, nos automóveis elétricos e, cada vez mais, nas grandes instalações que armazenam energia para a rede elétrica. Seu sucesso vem de uma combinação rara: armazena muita energia em pouca massa, aguenta milhares de ciclos de carga e descarga, perde pouca carga quando parada e caiu continuamente de preço. Essa mesma alta densidade de energia, porém, tem um lado preocupante. Quando algo dá errado, a energia guardada pode ser liberada na forma de calor, de forma rápida e descontrolada. Entender por que essas baterias esquentam é, portanto, entender tanto seu funcionamento normal quanto seus limites de segurança.

Origem e definição

A bateria de íon-lítio é um acumulador eletroquímico recarregável: converte energia química em elétrica durante a descarga e faz o caminho inverso na recarga. O nome vem do fato de que o lítio circula dentro da célula na forma iônica (Li⁺), e não como metal. Essa escolha resolveu o principal problema das primeiras baterias de lítio, a alta reatividade do lítio metálico.

O desenvolvimento rendeu o Prêmio Nobel de Química de 2019 a três pesquisadores, e a Real Academia Sueca de Ciências descreve sua história em etapas (The Royal Swedish Academy of Sciences, 2019). Na década de 1970, Stanley Whittingham construiu uma célula com cátodo de dissulfeto de titânio, material cuja estrutura em camadas consegue alojar íons de lítio. Combinado a um ânodo de lítio metálico, ele gerava pouco mais de 2 volts. Em 1980, John Goodenough mostrou que o óxido de cobalto com lítio intercalado chegava a cerca de 4 volts, o que dobrou o potencial disponível. Em 1985, Akira Yoshino substituiu o lítio metálico do ânodo por coque de petróleo, um material carbonoso capaz de receber íons de lítio, e obteve a primeira bateria de íon-lítio comercialmente viável. O produto chegou ao mercado em 1991. Desde então a arquitetura básica (dois materiais hospedeiros que trocam íons de lítio entre si) mudou pouco, embora os materiais tenham evoluído bastante.

Como funcionam

Uma célula de íon-lítio é formada por cinco partes, conforme a descrição do Departamento de Energia dos Estados Unidos (U.S. DEPARTMENT OF ENERGY, s.d.). O ânodo, ou eletrodo negativo, é quase sempre de grafite. O cátodo, ou eletrodo positivo, é um composto de lítio com metais de transição. Os mais usados hoje são os óxidos lamelares de níquel, manganês e cobalto (NMC) e o fosfato de ferro-lítio (LFP). Entre os dois eletrodos fica o eletrólito, normalmente um sal de lítio (como o hexafluorofosfato de lítio, LiPF₆) dissolvido em solventes orgânicos do grupo dos carbonatos. É ele que transporta os íons de um lado a outro. Para que os eletrodos não se toquem, um separador poroso de polímero (polietileno ou polipropileno) os mantém afastados: deixa passar os íons e bloqueia a passagem direta de elétrons. Por fim, coletores de corrente, uma folha de cobre no lado negativo e uma de alumínio no lado positivo, ligam a célula ao circuito externo.

Esquema de uma célula de íon-lítio descarregando: íons de lítio saem do ânodo de grafite e atravessam o eletrólito e o separador até o cátodo, enquanto elétrons vão pelo fio externo e acendem uma lâmpada.
Íons pelo meio, elétrons pelo fio.

O princípio de funcionamento costuma ser chamado de “cadeira de balanço” (rocking chair), porque o lítio oscila entre os dois eletrodos sem se depositar como metal. Na descarga, os átomos de lítio guardados entre as camadas de grafite liberam elétrons e saem do ânodo como íons Li⁺. Os íons atravessam o eletrólito e o separador até o cátodo, onde se encaixam novamente na estrutura cristalina. Os elétrons, que não passam pelo separador, percorrem o circuito externo e é esse fluxo que alimenta o aparelho. Na recarga, uma fonte externa força o processo inverso: o lítio sai do cátodo e volta para o grafite, e a energia fica de novo armazenada como diferença de potencial químico entre os eletrodos (U.S. DEPARTMENT OF ENERGY, s.d.).

Um detalhe é essencial para entender tanto a durabilidade quanto a segurança dessas baterias. Nos primeiros ciclos, parte do eletrólito reage com a superfície do grafite e forma uma película fina chamada interfase de eletrólito sólido (SEI, do inglês solid electrolyte interphase). A SEI deixa passar íons de lítio, mas impede que o eletrólito continue reagindo com o ânodo, e por isso funciona como uma camada protetora. Ela é, no entanto, a primeira estrutura a se degradar quando a célula esquenta demais, e sua decomposição costuma ser o primeiro passo da sequência de reações que leva à falha térmica.

A química do cátodo define boa parte das características de cada bateria. Os cátodos ricos em níquel (NMC) armazenam mais energia por quilograma, até cerca de 255 a 265 Wh/kg segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, 2026a; 2026b). Por isso são preferidos em veículos que precisam de grande autonomia. O LFP armazena menos (até cerca de 205 Wh/kg), mas é mais barato, dura mais ciclos e é bem mais estável termicamente, porque sua estrutura de fosfato retém o oxigênio com mais força. Essa diferença de estabilidade, como se verá adiante, pesa muito na segurança.

Onde são utilizadas

As baterias de íon-lítio começaram nos eletrônicos portáteis, como filmadoras, celulares e notebooks, e esse continua sendo um mercado enorme. Hoje elas também alimentam ferramentas sem fio, patinetes, bicicletas elétricas, dispositivos médicos, satélites e sistemas de energia de emergência em data centers. O grande motor de crescimento do setor, porém, é a mobilidade elétrica. Segundo o Global EV Outlook 2026 da IEA, as baterias instaladas em veículos elétricos chegaram a cerca de 1,2 TWh em 2025, quase 30% a mais que no ano anterior, e responderam por mais de 70% de toda a demanda mundial de baterias. Os veículos leves concentram mais de 85% desse volume (IEA, 2026a).

A segunda grande aplicação é o armazenamento estacionário, ou seja, baterias ligadas à rede elétrica. Elas guardam o excedente da geração solar e eólica nas horas de sobra e o devolvem nos horários de pico, o que ajuda a estabilizar sistemas com muita energia renovável. Somados, veículos elétricos e armazenamento estacionário representam cerca de 90% do mercado atual de íon-lítio. Em 2025, o LFP correspondeu a mais de 90% das novas instalações estacionárias no mundo, justamente por ser mais barato, mais durável e mais seguro, num uso em que o peso importa pouco (IEA, 2026a).

O Brasil começa a entrar nesse segundo mercado. A Portaria Normativa MME nº 136, de 1º de junho de 2026, regulamentou o primeiro leilão de reserva de capacidade voltado especificamente a baterias (LRCAP 2026 – Armazenamento), com receita fixa garantida aos vencedores a partir de 2028. A Empresa de Pesquisa Energética recebeu 6.091 projetos cadastrados, que somam cerca de 297 GW de potência, um número que mostra o forte interesse do mercado. O objetivo declarado é dar mais flexibilidade ao Sistema Interligado Nacional e reduzir o desperdício (curtailment) de energia eólica e solar (CENÁRIO ENERGIA, 2026a; 2026b). O país também tem papel na produção da matéria-prima: o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, exportou em 2023 seu primeiro carregamento de concentrado de lítio em escala industrial, num projeto que o governo estadual promove como “Vale do Lítio” (AGÊNCIA MINAS, 2023).

Por que as baterias esquentam

O calor no funcionamento normal

Nenhuma conversão de energia é perfeitamente eficiente, e a bateria não é exceção. Mesmo em condições normais, parte da energia que entra ou sai da célula vira calor. O modelo clássico para descrever esse fenômeno é o balanço de energia proposto por Bernardi, Pawlikowski e Newman (1985), até hoje a base da maioria dos modelos térmicos de baterias. Em forma simplificada, ele divide o calor gerado em uma parcela irreversível e uma reversível.

A parcela irreversível vem da diferença entre a tensão de equilíbrio da célula e a tensão real durante o uso, multiplicada pela corrente. Ela tem duas origens. A primeira é o aquecimento ôhmico, ou efeito Joule: a corrente encontra resistência nos eletrodos, no eletrólito, no separador e nos contatos, e dissipa energia proporcional ao quadrado da corrente (I²R). A segunda são as perdas por polarização, associadas à energia necessária para as reações de transferência de carga nas superfícies dos eletrodos e para a difusão do lítio no eletrólito e dentro das partículas sólidas. Como o calor ôhmico cresce com o quadrado da corrente, dobrar a corrente quadruplica essa parcela. Por isso o recarregamento rápido e as descargas de alta potência, como numa aceleração forte de um carro elétrico, são os momentos em que a bateria mais esquenta.

A parcela reversível, chamada calor entrópico, vem da variação de entropia das reações de inserção do lítio nos eletrodos. Ela é proporcional à corrente, à temperatura e à variação do potencial de equilíbrio com a temperatura, e pode tanto liberar quanto absorver calor, conforme o sentido da corrente e o estado de carga da célula (BERNARDI; PAWLIKOWSKI; NEWMAN, 1985). Em correntes baixas ela pode ser comparável à parcela irreversível. Em correntes altas, o aquecimento irreversível domina, o que também é observado em estudos recentes durante o carregamento (CHEN et al., 2026).

Esse calor importa porque a bateria opera bem numa faixa estreita de temperatura. Calor demais acelera reações paralelas que degradam a SEI e consomem lítio, o que encurta a vida útil. Frio demais também prejudica: a difusão do lítio fica mais lenta e, numa carga rápida em baixa temperatura, o lítio pode se depositar como metal na superfície do grafite em vez de se intercalar. Esse lítio depositado, quando cresce na forma de filamentos (dendritos), pode perfurar o separador. A resistência interna também aumenta com o envelhecimento, de modo que baterias velhas tendem a esquentar mais para entregar a mesma corrente. Por isso as baterias de veículos e de armazenamento têm sistemas de gerenciamento (BMS) que monitoram tensão, corrente e temperatura de cada grupo de células, além de sistemas ativos de refrigeração ou aquecimento.

A fuga térmica: quando o aquecimento se torna perigoso

O aquecimento passa a ser perigoso quando entra num ciclo que se realimenta, a chamada fuga térmica (thermal runaway). Nesse regime, o calor dispara reações químicas exotérmicas, que liberam mais calor, que aceleram novas reações, e assim por diante, até que a energia química da célula seja liberada em segundos ou minutos, muitas vezes com fumaça, chamas e, em casos extremos, explosão. A revisão de Feng et al. (2018), uma das mais citadas da área, descreve a fuga térmica como uma cadeia de reações em que cada etapa eleva a temperatura até o limiar da seguinte.

As revisões recentes agrupam os gatilhos em três tipos de abuso e em defeitos internos (LIU et al., 2024; CHEN et al., 2026). O abuso mecânico inclui esmagamento, perfuração, impacto, queda ou dobra, como numa colisão de veículo ou num celular amassado. O abuso elétrico inclui sobrecarga, descarga excessiva, carga ou descarga com corrente alta demais e curto-circuito externo. O abuso térmico é a exposição a uma fonte de calor externa ou a falha do sistema de refrigeração. Os três caminhos acabam convergindo num mesmo ponto: o curto-circuito interno, quando ânodo e cátodo entram em contato elétrico direto. Há ainda as falhas que nascem dentro da célula, sem nenhum abuso aparente: impurezas metálicas da fabricação, defeitos no separador ou o crescimento de dendritos ao longo do uso. Essas são as mais difíceis de prever, porque podem se manifestar meses ou anos depois da produção (LIU et al., 2024).

Uma vez iniciada, a sequência segue uma escala de temperatura relativamente bem conhecida, embora os valores exatos variem com a química, o projeto e o estado de carga da célula. Segundo a síntese de Chen et al. (2026), a decomposição exotérmica da SEI começa por volta de 57 °C, ganha intensidade perto de 80 °C e atinge o pico de liberação de calor perto de 100 °C. Sem a camada protetora, o lítio intercalado no grafite fica exposto e reage diretamente com o eletrólito, e o aquecimento passa a se sustentar sozinho. Por volta de 130 °C o separador de polietileno derrete, e perto de 170 °C o de polipropileno. O derretimento em si absorve calor e pode até fechar momentaneamente os poros, interrompendo a passagem de íons. Mas o encolhimento do material logo expõe áreas em que os eletrodos se tocam, e o curto-circuito interno resultante gera uma grande descarga de corrente, com aquecimento Joule localizado e muito intenso.

Entre cerca de 150 °C e 300 °C entra a etapa mais crítica: o cátodo se decompõe e libera oxigênio. Isso é especialmente grave nos óxidos ricos em níquel, que liberam oxigênio em quantidade maior e em temperaturas menores. Esse oxigênio, liberado dentro de uma célula fechada e cheia de solventes orgânicos, alimenta a combustão do eletrólito. Acima de aproximadamente 200 a 260 °C, o próprio eletrólito se decompõe de forma exotérmica, e o aglutinante dos eletrodos reage com o lítio liberando hidrogênio (CHEN et al., 2026). A geração de gases eleva a pressão interna, a célula estufa, a válvula de segurança se rompe e expele uma mistura de gases inflamáveis e tóxicos. A literatura registra hidrogênio, monóxido e dióxido de carbono, hidrocarbonetos leves e compostos fluorados vindos do sal do eletrólito (FENG et al., 2018). Se houver uma fonte de ignição, e a própria temperatura da célula costuma bastar, a mistura pega fogo.

Duas consequências práticas decorrem desse mecanismo. A primeira é a propagação: num módulo ou pacote, o calor de uma célula em fuga térmica pode levar as vizinhas ao mesmo limiar, numa reação em cascata. Por isso os projetos modernos usam barreiras térmicas entre células e canais para direcionar os gases expelidos. A segunda é que a química do cátodo muda muito o risco. Como o LFP libera pouco oxigênio, suas reações são menos violentas e começam em temperaturas mais altas do que as dos cátodos NMC ricos em níquel. Ainda assim o LFP não está imune: uma célula LFP totalmente carregada pode entrar em fuga térmica por volta de 167 °C, segundo dados reunidos por Chen et al. (2026). A diferença está mais na intensidade e na velocidade do evento do que na impossibilidade de ele ocorrer. Isso explica, em parte, a preferência pelo LFP no armazenamento estacionário, onde grandes quantidades de células ficam concentradas num mesmo local.

Perspectivas futuras

A tendência mais clara é a de redução de custos e expansão do uso. Segundo a IEA, o preço médio das baterias caiu 8% em 2025, e os pacotes LFP já custam, em média, mais de 40% menos por quilowatt-hora que os NMC. Isso explica por que o LFP ultrapassou 55% das baterias instaladas em veículos elétricos no mundo, contra quase 50% no ano anterior. O mesmo relatório mostra que a China produz baterias a custos cerca de 30% menores que os da América do Norte e 35% menores que os da Europa, uma diferença que aumentou desde 2022 e que tem levado vários países a adotar políticas industriais para criar cadeias próprias (IEA, 2026a).

Ao mesmo tempo, a dependência de minerais críticos continua sendo uma vulnerabilidade. O preço do lítio no início de 2026 era mais que o dobro do ano anterior, embora ainda cerca de 70% abaixo do pico de 2022, e o do cobalto também dobrou (IEA, 2026a). Essa volatilidade estimula três caminhos complementares. O primeiro são químicas com menos cobalto e níquel. O segundo é a reciclagem, que recupera metais de baterias no fim da vida útil. O terceiro são tecnologias alternativas ao próprio lítio.

A alternativa mais promissora no curto prazo é a bateria de sódio-íon. Ela funciona pelo mesmo princípio de “cadeira de balanço”, mas usa o sódio, muito mais abundante e mais bem distribuído geograficamente. Segundo análise da IEA publicada em fevereiro de 2026, as células mais recentes chegam a cerca de 175 Wh/kg, abaixo do LFP e do NMC, mas mantêm cerca de 90% da capacidade a −40 °C e funcionam até 70 °C, o que as torna atraentes para climas frios. Os desafios continuam relevantes: a autonomia ainda é menor, as cadeias de suprimento são incipientes e mais de 95% da capacidade de produção projetada para 2030 está na China. Os autores avaliam que o sódio-íon só competirá amplamente com o lítio se os preços do lítio continuarem altos ou se houver ganhos importantes de densidade de energia. No curto prazo, o mais provável é que ocupe nichos e apareça em pacotes híbridos que combinam as duas químicas (IEA, 2026b).

No longo prazo, a grande aposta é a bateria de estado sólido, que troca o eletrólito líquido inflamável por um sólido cerâmico, polimérico ou à base de sulfetos. A promessa é dupla. Do ponto de vista da segurança, remove-se o principal combustível da fuga térmica. Do ponto de vista do desempenho, abre-se caminho para usar lítio metálico no ânodo e chegar a densidades de energia bem maiores. A IEA, no entanto, é cautelosa: as baterias semissólidas já são comerciais, mas as totalmente sólidas ainda estão na fase de protótipo e de produção em pequena escala para testes, e devem ficar restritas a veículos premium até a primeira metade da década de 2030 (IEA, 2026a).

Novidades do setor em 2026

O ano de 2026 marca a chegada do sódio-íon aos veículos de passeio produzidos em série. Em fevereiro, a CATL, maior fabricante de baterias do mundo, anunciou com a montadora Changan o primeiro carro de passeio de produção em série equipado com sua bateria de sódio-íon Naxtra, com lançamento previsto para meados do ano e fornecimento para todas as marcas do grupo. Segundo o fabricante, a bateria tem até 175 Wh/kg, autonomia de até 400 km com um pacote de 45 kWh e mantém mais de 90% da capacidade a −40 °C, com potência estável até −50 °C. São números divulgados pela própria empresa, ainda à espera de validação independente em larga escala (CNEVPOST, 2026). O movimento não se limita à China: a Coreia do Sul anunciou em setembro uma mudança estratégica em direção ao sódio-íon para recuperar participação de mercado (PV MAGAZINE, 2026).

No estado sólido, 2026 tem sido um ano de transição do laboratório para a pré-produção, ao menos nos anúncios. Em setembro, sete ministérios chineses publicaram o plano quinquenal para a nova indústria de baterias, que prevê aplicação em larga escala preliminar de baterias totalmente sólidas até 2030. Em julho já havia entrado em vigor a norma nacional chinesa GB/T 43568-2026 para baterias de estado sólido em veículos, e em setembro foi aprovada no âmbito da IEC uma norma internacional de ensaios para essa tecnologia. Entre as empresas, a CATL anunciou uma célula de sulfeto com 500 Wh/kg e mais de 2.000 ciclos, com produção em pequenos lotes prevista para 2027. A Samsung SDI mira a produção em massa no segundo semestre de 2027, e a Panasonic prevê distribuir amostras no fim de 2026 (SMM, 2026). Toyota e BYD indicam os primeiros veículos com estado sólido para 2028 e 2027, respectivamente (IEA, 2026a). A própria fonte setorial que reúne esses anúncios ressalta que os prazos são previsões das empresas e que os problemas de interface entre os materiais sólidos, de fabricação e de custo ainda não foram resolvidos (SMM, 2026).

Considerações finais

A bateria de íon-lítio deve seu sucesso a um princípio simples, o vaivém dos íons de lítio entre dois materiais hospedeiros, e a décadas de aperfeiçoamento dos materiais. O calor que ela gera faz parte de seu funcionamento: vem da resistência elétrica, das perdas nas reações e da termodinâmica da inserção do lítio, e cresce com a intensidade de uso. O perigo surge quando esse calor ultrapassa a capacidade de dissipação e dispara a cadeia de reações exotérmicas da fuga térmica, cujo combustível é o próprio eletrólito orgânico e cujo agravante é o oxigênio liberado pelo cátodo. A pesquisa atual avança em duas frentes. Uma é tornar o sistema mais seguro, com químicas mais estáveis como o LFP, gerenciamento eletrônico mais sofisticado, detecção precoce de falhas e, no horizonte, eletrólitos sólidos. A outra é torná-lo mais barato e menos dependente de minerais críticos, com o sódio-íon e a reciclagem. É provável que a próxima década não tenha uma única química dominante, e sim várias, cada uma adequada a um tipo de aplicação.

Referências

AGÊNCIA MINAS (Governo de Minas Gerais). Primeiro embarque de lítio do Vale do Jequitinhonha. 2023. Disponível em: https://www.agenciaminas.mg.gov.br/news/pdf/118362.pdf

BERNARDI, D.; PAWLIKOWSKI, E.; NEWMAN, J. A general energy balance for battery systems. Journal of the Electrochemical Society, v. 132, n. 1, p. 5–12, 1985. DOI: 10.1149/1.2113792.

CENÁRIO ENERGIA. MME publica portaria do primeiro leilão de baterias do país. 3 jun. 2026a. Disponível em: https://cenarioenergia.com.br/2026/06/03/mme-portaria-primeiro-leilao-baterias-armazenamento-lrcap-2026/

CENÁRIO ENERGIA. 1º Leilão de Baterias supera 6 mil projetos na EPE. 3 ago. 2026b. Disponível em: https://cenarioenergia.com.br/2026/08/03/1o-leilao-de-baterias-supera-6-mil-projetos-na-epe-e-escancara-corrida-por-flexibilidade-no-sin/

CHEN, Z.; ZHANG, J.; LIU, C.; YANG, C.; CHEN, S. Thermal runaway in lithium-ion batteries: a review of mechanisms, prediction approaches, and mitigation strategies. Batteries, v. 12, n. 3, art. 88, 2026. DOI: 10.3390/batteries12030088. Disponível em: https://www.mdpi.com/2313-0105/12/3/88

CNEVPOST. CATL sodium batteries begin deployment in production passenger vehicles. 5 fev. 2026. Disponível em: https://cnevpost.com/2026/02/05/catl-sodium-batteries-begin-deployment-in-production-passenger-vehicles/

FENG, X.; OUYANG, M.; LIU, X.; LU, L.; XIA, Y.; HE, X. Thermal runaway mechanism of lithium ion battery for electric vehicles: a review. Energy Storage Materials, v. 10, p. 246–267, 2018. DOI: 10.1016/j.ensm.2017.05.013.

IEA – INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Global EV Outlook 2026: electric vehicle batteries. Paris: IEA, 2026a. Disponível em: https://www.iea.org/reports/global-ev-outlook-2026/electric-vehicle-batteries. Relatório completo: https://iea.blob.core.windows.net/assets/857aa690-2a43-453f-9f12-147cc8f0a1dd/GlobalEVOutlook2026.pdf

IEA – INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. LOMBARDO, T. et al. Sodium-ion battery momentum grows, but challenges remain. 17 fev. 2026b. Disponível em: https://www.iea.org/commentaries/sodium-ion-battery-momentum-grows-but-challenges-remain

LIU, C. et al. Review—Understanding thermal runaway in lithium-ion batteries: trigger, mechanism, and early warning strategies. Journal of the Electrochemical Society, v. 171, n. 12, art. 120527, 2024. Disponível em: https://pure.bit.edu.cn/en/publications/reviewunderstanding-thermal-runaway-in-lithium-ion-batteries-trig/

PV MAGAZINE. South Korea marks major shift to sodium-ion batteries to regain market. 30 set. 2026. Disponível em: https://www.pv-magazine.com/2026/09/30/south-korea-marks-major-shift-to-sodium-ion-batteries-to-regain-market/

SMM – SHANGHAI METALS MARKET. Solid-state batteries: Q3 marks key transition from pilot validation to pre-mass production. 30 set. 2026. Disponível em: https://news.metal.com/newscontent/104142225-solid%E2%80%90state-batteries-q3-marks-key-transition-from-pilot-validation-to-pre%E2%80%90mass-production

THE ROYAL SWEDISH ACADEMY OF SCIENCES. The Nobel Prize in Chemistry 2019: press release. Estocolmo, 9 out. 2019. Disponível em: https://www.nobelprize.org/prizes/chemistry/2019/press-release/

U.S. DEPARTMENT OF ENERGY. How lithium-ion batteries work. Office of Energy Efficiency and Renewable Energy, s.d. Disponível em: https://www.energy.gov/eere/articles/how-does-lithium-ion-battery-work

ARGONNE NATIONAL LABORATORY. Science 101: batteries. s.d. Disponível em: https://www.anl.gov/science-101/batteries

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado.