Efeito Leidenfrost: a gota que dança na frigideira

Thayná Felizardo 9 min de leitura

Capa ilustrada: Efeito Leidenfrost: a gota que dança na frigideira

Quem já pingou água numa frigideira muito quente viu o que parece um truque: as gotas não evaporam na hora, viram pequenas pérolas e deslizam como patinadoras sobre o metal. O fenômeno tem nome, história de quase três séculos e ainda é objeto de pesquisa de ponta em dinâmica de fluidos.

Uma observação antiga

O efeito leva o nome do médico alemão Johann Gottlob Leidenfrost, que o descreveu em 1756 no tratado De Aquae Communis Nonnullis Qualitatibus Tractatus. Ele não foi o primeiro a notar o comportamento: Hermann Boerhaave já o mencionava em 1732, e o francês Pierre-Hippolyte Boutigny o estudou no século XIX sob o nome de “estado esferoidal”. Mas foi Leidenfrost quem deu à observação o rigor de um experimento, e seu nome ficou. Seu texto só ganhou tradução ao inglês em 1966.

A física: um colchão de vapor

A explicação central é simples e elegante. Quando uma gota toca um sólido muito quente, o líquido injeta vapor sob si mesmo e esse vapor, pressionado pelo peso da gota, forma uma almofada que a sustenta. A gota, portanto, não toca o metal. Isso tem duas consequências.

Corte de uma gota de água sobre uma chapa muito quente: uma camada fina de vapor sustenta a gota, que não toca o metal. No detalhe, numa chapa apenas morna, a gota toca o metal e ferve.
A gota flutua num colchão de vapor.

A primeira é térmica. Como não há contato direto, o líquido evapora lentamente, sem ferver. Esse vapor conduz mal o calor e funciona como isolante, o que explica por que uma gota sobrevive tanto tempo numa chapa a 300 °C, enquanto numa chapa “apenas” quente some em segundos.

A segunda é mecânica. Sem a adesão e o atrito que o contato com o sólido provoca, a gota ganha mobilidade extrema: desliza quase sem atrito e pode até quicar após um impacto. Por isso ela “dança”.

O fenômeno só aparece acima de uma temperatura crítica, o ponto de Leidenfrost. Para a água, ele fica em torno de 160 °C. O valor exato depende da superfície, da pressão e do tipo de impacto. Em experimentos de impacto, uma gota de água que cai sobre uma placa a 300 °C ainda faz contato e espirra gotículas, apesar de o ponto de Leidenfrost estático ser bem menor. A 380 °C, o contato some e a gota fica totalmente levitada. Há, portanto, um efeito Leidenfrost “estático” e outro “dinâmico”.

Tamanho, forma e duração

A almofada de vapor impõe regras à gota. Segundo Biance, Clanet e Quéré (2003), existe um tamanho máximo para uma gota de Leidenfrost, e a camada de vapor se relaciona com o tamanho da gota e muda no tempo conforme ela evapora, o que permite deduzir leis de escala para sua duração.

Gotas pequenas são quase esféricas, as “pérolas” da frigideira. Gotas grandes viram poças de espessura de cerca de duas vezes o comprimento capilar do líquido, algo como 5 mm para a água. Medições por interferência de luz mostraram que a base da gota não é plana. A camada de vapor forma uma depressão côncava na interface, e a geometria desse bolsão depende principalmente do tamanho da gota, não da temperatura do substrato. Uma poça grande ainda pode se tornar instável: uma chaminé de vapor sobe pelo centro, estoura a cúpula líquida e provoca erupções e oscilações espetaculares.

A gota que vira estrela

Numa poça grande de líquido levitado, o vapor que escapa pode excitar formas geométricas surpreendentes. Em experimentos com vários líquidos, observaram-se oscilações em forma de estrela com 2 a 13 pontas, e o número de modos depende fortemente da viscosidade. A pressão do vapor sob a gota oscila com o dobro da frequência da própria estrela, o que é típico de um forçamento paramétrico, como empurrar um balanço no momento certo. As oscilações são iniciadas por ondas capilares que modulam a pressão na camada de vapor, e a convecção térmica parece ter papel secundário. Ou seja, a dança tem origem sobretudo hidrodinâmica.

Gotas que se movem sozinhas

A mobilidade das gotas de Leidenfrost abriu uma linha de pesquisa em propulsão. Em 2006, Linke e colegas mostraram que gotas sobre superfícies quentes com dentes assimétricos, as chamadas “catracas” (ratchets), se autopropulsionam. As forças envolvidas são de 10 a 100 µN, muito menores que o peso do líquido, mas suficientes para velocidades da ordem de 10 cm/s.

O mecanismo demorou a ser entendido. Em 2011, Lagubeau e colegas mostraram que discos de gelo-seco também levitam e se movem em catracas quentes, o que descartou deformações do líquido como causa. A explicação proposta é viscosa: o fluxo de vapor sob o corpo é retificado pelos dentes assimétricos, e a tensão viscosa resultante arrasta o material na direção das descidas de cada dente. São, nas palavras de Quéré, uma espécie de hovercrafts em miniatura.

Não só água, não só gotas

O efeito é geral. Foi estudado com água, nitrogênio líquido, etanol, metanol, acetona e isopropanol. Ele ocorre também com sólidos que sublimam, como o gelo-seco, e existe em versão invertida. Numa esfera de aço quente mantida em um líquido fluorado que ferve a 56 °C, forma-se um filme de vapor ao redor dela acima de seu ponto de Leidenfrost, o “Leidenfrost inverso”.

O mito dos caminhantes do fogo

Um uso popular do efeito é explicar por que alguns indivíduos andam descalços sobre brasas. O físico Jearl Walker popularizou essa hipótese na Scientific American em 1977. A ideia é que o suor dos pés formaria uma almofada de vapor protetora. Estudos posteriores a enfraqueceram. Willey e McCarthy atribuem a possibilidade da façanha à baixa capacidade térmica das brasas, à baixa condutividade do carvão e ao curto tempo de contato; o próprio Walker passou a concordar que o efeito Leidenfrost parece não estar envolvido. Pés molhados podem até piorar o risco, pois a água conduz calor melhor que a pele seca e faz brasas grudarem. Vale como lição de ciência: uma explicação bonita e plausível precisa passar pelo teste dos dados.

Para que serve

Compreender o efeito importa na prática. Quando a camada de vapor colapsa, ocorre a transição explosiva para a ebulição nucleada, perigosa em indústrias como as usinas nucleares. Vakarelski e colegas mostraram em 2012, na Nature, que superfícies texturizadas e superhidrofóbicas estabilizam o filme de vapor e evitam essa transição. Em outras situações o objetivo é oposto: em trocadores de calor, interessa suprimir o efeito e elevar a temperatura de Leidenfrost, porque o filme de vapor reduz a troca térmica. Ao mesmo tempo, a baixa fricção do filme inspira superfícies de arrasto reduzido e dispositivos de transporte de líquidos sem contato.

Faça em casa

O teste da frigideira é conhecido na cozinha. As gotas de água flutuando sobre uma frigideira quente são a demonstração mais simples do efeito. Com a frigideira morna, as gotas chiam e somem rápido, porque fervem em contato com o metal. Com ela bem quente, as gotas se arredondam e deslizam. Use cabo firme, afaste o rosto (a água pode espirrar) e nunca despeje água em óleo quente.

Conclusão

O efeito Leidenfrost mostra como um fenômeno cotidiano esconde física profunda: transição de fase, hidrodinâmica de filmes finos, instabilidades, ondas capilares e propulsão sem contato. Uma gota que dança numa frigideira lembra que há muito a descobrir mesmo nas coisas mais familiares.

Referências utilizadas

Artigos científicos

  1. Quéré, D. Leidenfrost dynamics. Annual Review of Fluid Mechanics, v. 45, p. 197–215, 2013.
  2. Biance, A.-L.; Clanet, C.; Quéré, D. Leidenfrost drops. Physics of Fluids, v. 15, n. 6, p. 1632–1637, 2003.
  3. Burton, J. C.; Sharpe, A. L.; van der Veen, R. C. A.; Franco, A.; Nagel, S. R. Geometry of the vapor layer under a Leidenfrost drop. Physical Review Letters, v. 109, 074301, 2012.
  4. Ma, X.; Liétor-Santos, J.-J.; Burton, J. C. Star-shaped oscillations of Leidenfrost drops. Physical Review Fluids, v. 2, 031602, 2017.
  5. Ma, X.; Burton, J. C. Self-organized oscillations of Leidenfrost drops. Journal of Fluid Mechanics, publicado online em 4 mai. 2018.
  6. Linke, H. et al. Self-propelled Leidenfrost droplets. Physical Review Letters, v. 96, n. 15, 154502, 2006.
  7. Dupeux, G.; Le Merrer, M.; Lagubeau, G.; Clanet, C.; Hardt, S.; Quéré, D. Viscous mechanism for Leidenfrost propulsion on a ratchet. EPL (Europhysics Letters), v. 96, 58001, 2011.
  8. Lagubeau, G.; Le Merrer, M.; Clanet, C.; Quéré, D. Leidenfrost on a ratchet. Nature Physics, v. 7, 2011. (Conhecida aqui por citação em outros trabalhos.)
  9. Vakarelski, I. U.; Patankar, N. A.; Marston, J. O.; Chan, D. Y. C.; Thoroddsen, S. T. Stabilization of Leidenfrost vapour layer by textured superhydrophobic surfaces. Nature, v. 489, p. 274–277, 2012. doi:10.1038/nature11418
  10. Tran, T.; Lohse, D. et al., vídeos suplementares sobre impacto de gotas em placas quentes, em: Quéré, D. Leidenfrost dynamics (material suplementar, Annual Reviews, 2013).

Obras históricas (conhecidas por citação em artigos científicos)

  1. Boerhaave, H. Elementa Chemiae. Leiden, 1732.
  2. Leidenfrost, J. G. De Aquae Communis Nonnullis Qualitatibus Tractatus. Duisburg: Ovenius, 1756. Tradução inglesa: Wares, C. Int. J. Heat Mass Transfer, v. 9, p. 1153, 1966.
  3. Boutigny, P.-H. Nouvelle branche de physique: ou, Études sur les corps à l’état sphéroïdal. Paris, 1847.
  4. Walker, J. Seção “The Amateur Scientist”. Scientific American, ago. 1977. (Conhecida por descrição em fontes secundárias.)

Revisões e divulgação consultadas

  1. Quéré, D. Leidenfrost propulsion on a ratchet. Europhysics News, v. 43, n. 1 (destaque).
  2. Revisão sobre gotas de Leidenfrost em superfícies micro/nanoestruturadas. Frontiers in Energy, v. 12, n. 1, 2018. Disponível em: journal.hep.com.cn/fie/EN/Y2018/V12/I1/22
  3. Willey, D. Firewalking: Myth vs Physics. Univ. of Pittsburgh at Johnstown. sites.pitt.edu/~dwilley/Fire/FireTxt/fire.html
  4. Come Firewalk With Me: The Physics of Hot Coals. Scientific American (blog Cocktail Party Physics). scientificamerican.com/blog/cocktail-party-physics/come-firewalk-with-me-the-physics-of-hot-coals
  5. Hot Feet and Cool Reason: Investigating the Firewalking Phenomenon. Skeptic. skeptic.com/article/hot-feet-and-cool-reason-investigating-the-firewalking-phenomenon
  6. Playing with Fire. New Zealand Skeptics, 1997. articles.skeptics.nz/1997/08/01/playing-with-fire
  7. ScienceDaily. Notícia sobre Vakarelski et al., 13 set. 2012. sciencedaily.com/releases/2012/09/120913132917.htm
  8. Nature Middle East. Research Highlights sobre Vakarelski et al., 19 set. 2012. doi:10.1038/nmiddleeast.2012.135
  9. Nagel Group, Univ. of Chicago. Página “Leidenfrost”. nagelgroup.uchicago.edu/Nagel-Group/researchdir/leidenfrost.html

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado.